À conversa com: Bárbara Nogueira

 
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Antes de te conhecer oficialmente, já admirava o teu gosto em revistas. Por alguma razão, levavas sempre contigo as publicações que eu mais gostava. Sabes quando estás à espera que só já exista uma cópia para finalmente comprares determinada revista? Tu costumavas ser a pessoa a comprar essa última cópia. Isso deixou-me ainda com mais curiosidade de te conhecer e ao teu trabalho. Afinal, quem é a Bárbara?


Entre outras coisas, sou designer de comunicação, entre o print e o digital. Neste momento trabalho num estúdio de design, a Burocratik, como UI/UX Designer. Tenho sempre alguma dificuldade em escolher uma especialidade em que me enquadre. Interesso-me por todas as fases do projecto de design. Interpretar um briefing, pensar e desenvolver um protótipo, gerir conteúdos, dirigir a fotografia e o vídeo, pensar interacções e a experiência do utilizador, fazer reviews infinitas, acompanhar a produção… É um processo extenso mas sinto-me contente por neste momento conseguir acompanhar todas estas fases. Este acompanhamento obriga a pensar o projecto de uma forma muito mais realista, obriga a inseri-lo num contexto real, com todos os constrangimentos que possam existir, isto ajuda a tornar o produto final numa peça mais coesa, capaz de comunicar de forma eficaz e cumprir a sua função.

 

Muito do teu trabalho foca-se na área do design de interação entre utilizadores e interfaces. Achas que os designers editoriais também devem ter uma atenção redobrada na forma como o leitor vai “navegar” pela publicação? Ou será essa uma preocupação mais presente no mundo digital? 


Sim, acho que essa preocupação sempre existiu no design editorial. O cuidado com a narrativa, a escolha e a organização de conteúdos não são áreas novas para o editorial, mesmo que ao longo do tempo tenham assumido terminologias como storytelling, curadoria ou experiência do utilizador. Estas podem ser preocupações mais associadas com o mundo digital, mas não começam nem acabam nele. O que existe de diferente no digital é o tipo de acção e interacção que é necessária por parte do leitor/utilizador. São acções muito mais utilitárias, com fins específicos que permitem encontrar uma determinada informação, completar uma compra, etc. Isto leva-nos muitas vezes a pensar mais do que uma vez na forma como o utilizador final vai utilizar/navegar no site. A construção de uma narrativa consegue tornar estas experiências mais agradáveis e memoráveis, mas também cativar o utilizador a ficar por mais uns segundos. Na verdade todas estas preocupações existem no design editorial, aquilo que distingue estes dois mundos está relacionado sobretudo com o maior ou menor cuidado com os conceitos de espaço/tempo ou acção/contemplação, pelo menos da minha perspectiva.  

 

 

A tua tese de mestrado é um reflexo desses dois mundos. Podes falar-nos um pouco sobre essa investigação?

No primeiro ano de mestrado em Design Editorial (FBAUP), o meu principal foco foi a exploração do livro, numa perspectiva de objecto, de manuseamento e narrativa. O segundo ano encerrou com uma tese intitulada "A Palavra Escrita: Experiência de Leitura no Ecrã". Para mim, este foi um caminho lógico que representa o meu interesse pelas duas áreas e pelas especificidades de cada uma. Esta investigação procura essencialmente perceber de que forma os suportes impressos estão a ser transportados para o digital. Interessa-me analisar o panorama actual das práticas de leitura no ecrã, tanto do ponto de vista do designer como do leitor. Uma vez no ecrã, o objectivo foi compreender de que forma se processava a leitura e quais as mudanças na relação e interacção do leitor com o texto. Procurei ainda compreender as mudanças que ocorriam no próprio conteúdo, o proveito que podemos tirar deste meio e como podemos melhorar a experiência de leitura no ecrã. Acabei por concluir a tese com muitas perguntas e poucas respostas, mas penso que influenciou seriamente a forma como penso o design e a relação daquilo que nós fazemos com o que o utilizador recebe.

 

 

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No momento de escolheres a próxima revista que vais ler, és mais tentada pelo lado visual, pelo factor wow do design, ou pelo conteúdo escrito? 


Normalmente tento que exista um balanço entre as duas coisas, porém não costumo comprar revistas só pelo factor wow. Já comprei algumas apenas pelos conteúdos, mesmo que o seu aspecto não fosse nada apelativo, por isso acho que isto responde à tua pergunta. De qualquer das formas, acho que estamos a viver num momento em que existe um grande investimento no design editorial por parte das revistas. A maioria das publicações que vejo com uma grande qualidade de conteúdos, também apresente uma relação muito bem trabalhada a nível da forma e do conteúdo, um win-win para nós leitores.

 

Se tivesses de criar uma revista independente que fosse completamente diferente de tudo o que já existe, o que farias? 


Há uns dias vi um projecto no It's Nice That que me deixou com aquela sensação de "Quem me dera ter sido eu a pensar nisto. Como é que eu não pensei nisto antes?". É uma publicação chamada Zero, criada na Central Saint Martins. Esta publicação vive em vários suportes, desde o impresso ao digital. Existem vários projectos assim, mas o que me deixou mais surpreendida foi a forma como trabalham o suporte digital. Basicamente, no site da publicação temos um .zip disponível para download e lá dentro encontramos uma série de pastas dentro de pastas. Esta desfragmentação, a falta de uma ordem que nos guie pelos conteúdos, a forma despreocupada como a comunicação é feita por vários meios, são características que associo com muita facilidade ao digital e que gostava de ver mais vezes reflectidas nesta passagem da ideia de publicação/revista para o meio digital. Formalmente, é um projecto um pouco complexo e até abstracto, mas gostava de ver esta abordagem em mais publicações, em vez de termos apenas passagens literais de um meio para outro. Esta foi daquelas que me deixou mesmo com pena de não ter sido eu, mas oh well, há sempre tempo para mais.

 

E falando em revistas, quais são as tuas preferidas?

OFFSCREEN
A Offscreen é a revista que compro com mais assiduidade. É uma publicação que aborda temáticas dentro do mundo digital, mas muito focada no seu lado mais humano. Explora o universo das pessoas que constroem a tecnologia, mas também no público que pretendem servir. O que mais gosto nesta publicação é a forma positiva como aborda a tecnologia. Os artigos são muito focados em pessoas que têm um impacto positivo no mundo com a sua pegada digital, que trabalham em projectos que realmente mudam a vida das pessoas para o melhor. Existe um grande cuidado na escolha dos conteúdos e nunca cai em falsos moralismos ou ideais pouco considerados sobre como "salvar o mundo". A Offscreen foca-se realmente em partilhar histórias reais e com sentido, produtos já implementados na sociedade e projectos com um impacto real.

 

 

ZWEIKOMMASIEBEN

A Zweikommasieben é uma revista suíça que nasceu em 2011 e que se dedica fundamentalmente à nova música experimental e electrónica. É a extensão dos meus gostos musicais para uma publicação impressa e daí gostar tanto de a ler. O design da publicação acompanha a lógica da experimentação. As capas não seguem um layout comum e o próprio formato da revista é frequentemente alterado. Em alguns casos a paginação acaba por ser bastante brutalista. Existem também algumas situações em que a legibilidade e a leitura se complicam pela forma como a composição dos blocos de texto é feita (ainda por cima a revista é bilingue). Provavelmente era a única coisa que modificava se alguma vez tivesse de trabalhar na sua edição. Mas percebo que uma revista que comunique projectos tão diferentes e inovadores musicalmente, queira reflectir esta lógica na sua própria forma. 

 

 

MIGRANT
Dos melhores exemplos de como a forma pode ajudar a consciencializar para conteúdos de génese política, ambiental, económica ou social. Embora aborde temáticas difíceis de ler num contexto de lazer, fá-lo de uma forma bastante acessível, muito informativa e sempre com um cuidado imenso na edição. Toda a identidade da revista é bastante forte, o tipo de letra foi criado especialmente para este efeito. Em cada edição é abordado um tema base diferente e este é representado por uma gama de cores única, recorrendo a tons metalizados para reforçar a informação mais visual como desenhos técnicos, esquemas ou gráficos informativos. É uma publicação que, fazendo uso de um layout bastante contemporâneo e arrojado, pretende alterar a forma como pensamos a sociedade, as pessoas e a sua movimentação. 

 

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BORSHCH
A par da Zweikommasieben, a Borshch é também uma revista dedicada às novas tendências da música electrónica. É muito recente, nasceu o ano passado em Berlim e o design é de pessoal português. Tudo certo, não é? Ainda está um pouco verde em relação à Zweikommasieben, mas nota-se bastante diferença na qualidade dos conteúdos da primeira para a segunda edição, o que me leva a pensar que se irá transformar numa publicação mais coesa, não tão presa a modas editorias e mais focada em comunicar de uma forma intemporal. 

 

 

BACKSTAGE TALKS
Destas cinco escolhas, a Backstage Talks é a entrada mais recente lá em casa. Já me tinha cruzado com a primeira edição, mas não a cheguei a comprar. À segunda teve de ser. É uma revista focada em design, mas muito direccionada para aquele tipo de conversas que normalmente não se têm em nenhuma sala de aulas. Assuntos super práticos do mundo profissional, questões muito bem colocadas que fogem da tradicional conversa com designers. Vai buscar figuras dos mais diferentes campos do design e tenta perceber como é que estas pessoas conseguem resolvem problemas, como se comunicam aos outros, como resolvem um briefing ou como lidam com orçamentos. Acho que é uma leitura importante para quem trabalha ou quer trabalhar como designer (e não só). 

 

 

“À conversa com…” é uma série de entrevistas em que damos a conhecer a comunidade criativa que frequenta o Manifesto.