A minha pilha é a maior - Pedro Codeço

 
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Quem é o Pedro?

Sou ilustrador! Trabalho com uma vasta equipa na Wonderbly e passo os dias a desenhar e a pintar (com umas agradáveis pausas para pôr a conversa em dia com a comunidade do mercado). O que mais posso pedir?

Fala-nos um pouco sobre o teu interesse na área da ilustração.

Neste ponto da minha vida, acho que é seguro dizer que mais do que um mero interesse, a minha relação com a ilustração, já é uma união-de-facto. Pensar onde eu estaria ou o que estaria a fazer se não fosse a trabalhar nesta área, tem-se tornado um exercício quase contranatura. Muitas vezes brinco (mas no fundo a falar a sério) que a ilustração é uma dádiva e uma maldição na minha vida. Dádiva porque retiro muito prazer da ilustração em si, desde o acto de procurar ideias até as concretizar. Mas retiro prazer também daquilo que indirectamente veio com a ilustração. Falo não só do trabalho, mas também dos amigos que fiz e da minha maneira de ser. Acredito muito que a ilustração influenciou muito nesses aspectos, duma forma ou de outra. Digo apenas que é uma maldição, porque, como tudo o que é bom na vida, tem de haver sempre um revés da medalha, e sinto que é por gostar tanto da ilustração que às vezes é mais fácil desiludir-me quando algo ligado a ela não corre como eu quero… e nem sequer vou falar na incerteza diária que é trabalhar numa área artística actualmente. Por isso aconselho qualquer pessoa que se sinta numa situação semelhante, a “não pensar no dia de amanhã”. Cliché ou não, a verdade é que me ajuda.

Quais são as tuas 5 publicações favoritas?

Illustration Next

Uma bíblia com mais de 300 ilustrações feitas por 50 ilustradores que se juntam 2 a 2 para abordar um tema que lhes é dado. Esta é a premissa. Mas só quem vê, e lê as entrevistas feitas a cada um destes ilustradores é que percebe a fonte de entretenimento que aí está. Adorei ver como alguns ilustradores completamente diferentes se conseguiam complementar, dentro do trabalho de cada um, e vice-versa, quando a falta de química e o constrangimento entre os ilustradores se sente até na entrevista. 

Minchō

Dezenas de ilustradores diferentes, novos e experientes, com linguagens totalmente novas, com projectos interessantes. Tudo isto numa revista que trimestralmente vem ter a minha casa. Cada número tem como base um tema diferente, e a partir daí falam do que mais relevante se passa no mundo da ilustração. Esta revista é como aquele amigo que vai ter contigo e te põe a par de tudo quando faltas à escola.

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Illusive

É também uma colectânea de proporções bíblicas para quem não tem preconceitos quanto à ilustração e onde a mesma mostra a sua versatilidade nas diferentes áreas. Neste livro, a ilustração actua na publicidade, reportagem, comunicação; entre diferentes movimentos artísticos que a influenciam como o Pós-Realismo ou a Cultura Pop; entre simples rascunhos na àrea da moda, até a fortes imagens de protesto.

Korea-Korea

Para não me “reduzir” só à ilustração, escolhi este livro que, logo pelo conceito me deixou fascínado. Korea-Korea mostra tão pura e simplesmente, fotos da Coreia do Norte dum lado, e Coreia do Sul do outro. Tão simples quanto isso. E somos nós, o leitor, que temos de fazer o exercício de análise. Uma espécie de “descubra as diferenças”, mas com um tema muito mais pesado e sombrio, que nos mostra a realidade tão díspar de dois países que partilham parte do mesmo nome e da mesma fronteira.

My Four Seasons

Voltando novamente à ilustração, mas desta vez na forma de livro infantil (e porque eu sinto que há imensa ilustração fantástica “escondida” em livros infantis e que não pode ficar esquecida), este livro ilustrado por Dawid Ryski traz-nos a beleza e o conforto de cada estação do ano ilustrada com uma paleta de cores perfeita. E tem a vantagem de ser um livro cíclico (ou seja, no fundo não tem um fim), tal como as estações do ano! Traz-me uma certa nostalgia, também.

Fizeste algumas ilustrações para a revista Inside a propósito da temática da corrida. Como foi essa experiência?

Sempre que falo dessa experiência, começo com um “quem me dera que fosse sempre assim”. No mesmo dia que conheci o Miguel e Paulo, que me apresentaram a revista, fizemos também uma pequena sessão de brainstorming acerca daquilo que nós os três queríamos que as ilustrações representassem e o conceito, ou mensagem, que as ilustrações iriam levar aos leitores da revista. E duma forma simples e natural, chegámos rapidamente a um consenso. A partir daí, deram-me liberdade criativa total (só quem passou por más experiências profissionais, sabe o privilégio que isso é). Acho que essa confiança que tivemos no trabalho uns dos outros, foi a chave para o resultado final da revista que, a meu ver, ficou muito bem.

Se fosses director criativo e tivesses recursos infinitos, como seria a tua publicação ideal?

Vêm-me muitas ideias à cabeça, mas para tentar manter uma visão minimamente realista, acho que me agrupava com mais 3-4 ilustradores ou designers com gostos ecléticos ou diferentes dos meus, dividíamos os conteúdos da revista por cada membro, e trimestralmente preenchíamos cada número com entrevistas a outros ilustradores, histórias e teorias das artes e expúnhamos ilustrações soltas e aleatórias que fossemos descobrindo ao longo do tempo (mencionando SEMPRE o respectivo ilustrador). Talvez seja um conceito um pouco egoísta da minha parte, visto que estou a mencionar aquilo que eu próprio procuro, mas acho que o facto de ter outros ilustradores com gostos variados, a fazer a curadoria dos conteúdos, ajudaria a que cada publicação não corresse o risco de se tornar monótona, tendenciosa, repetitiva. E, por achar que a ilustração ainda não é (mas devia ser) o prato de cada dia na vida de muitas pessoas, como é a música ou o cinema, acho piada à ideia de convidar e incentivar pessoas de áreas completamente diferentes, a escrever ou a participar na revista de alguma forma.