A minha pilha é a maior, Miguel Moreira

 

“A minha pilha é a maior” é uma serie de entrevistas a leitores apaixonados por publicações independentes. Nesta edição o Miguel Moreira revela-nos a sua pilha.

Quem é o Miguel?

O que me define é uma colecção de acasos. Cresci no Monte Abraão, cidade de Queluz e recentemente mudei me para Matosinhos, por acaso é a mesma terra em que nasceu o meu avô ‘Zé’, que estudou artes decorativas na Soares dos Reis e durante toda a sua vida criou com as suas mãos belíssimas peças de mobiliário. Sinto que esta vivência influenciou-me. 

Frequentei uma escola com o nome de um poeta, Ruy Belo, de quem eu não entendia os poemas. Hoje, a sua escrita faz parte de uma das minhas paixões, a poesia. Gosto de sentir poesia. 

Dentro de uma caixa de recordações, tenho um caderno que preenchi na primária com a resposta à eterna questão  “O que queres ser quando fores grande?” continha um top três preenchido com: jogador de futebol, ciclista e inventor. Cresci, e os acasos tornaram-me um ciclista, sem bicicleta, e num futebolista, sem bola. Corro. Faço atletismo profissionalmente. Quando não estou a correr, sou inventor. Em folhas de papel gosto de desenhar letras e palavras. Faço rabiscos de móveis ou outro projecto que me apeteça. A naturalidade em desenhar no papel, ajuda-me a materializar projectos de design no computador.

Fala-nos um pouco sobre a tua paixão pelo corrida. 

A criança que fazia tudo a correr, cresceu e fez disso profissão. Gosto de correr. Não me importo de correr muitos quilómetros sucessivos mas dá-me particularmente prazer estar na pista e concentrar-me em correr o mais rápido possível, um novo máximo, como nos sonhos, transcendendo-me ou como nas palavras do escritor José Luis Peixoto no belíssimo livro Cemitério de Pianos: “corro o mais depressa que consigo, como se pudesse deixar-me para trás, como se avançasse para fora o meu corpo e, através da velocidade, me purificasse, corro o mais depressa que consigo, corro…”. É uma actividade muito básica, uma questão de sobrevivência no mundo hostil em que surgiram os primeiros bípedes, eu apenas dou continuidade a essa actividade ancestral, naturalmente nos nossos tempos deixou de ser uma questão de sobrevivência, tornou-se apenas a forma como eu vivo.

E como surge o design na tua vida?

Considero que sempre fui muito permeável aos pequenos detalhes. Seja a observar uma enorme lua cheia, uma bela capa de um livro, ou um outdoor publicitário numa avenida. Esta observação aliada ao gosto pelo desenho tornou natural a incursão pelo design. A dificuldade inicial era materializar estas ideias no computador. Felizmente o acaso, presenteou-me com um professor de desenho no secundário que era uma autêntica reencarnação de um homem do renascimento, era dotado de uma sensibilidade grande para as artes, desde a música ao desenho. Deu-nos a conhecer muitas referências, regras de composição e estéticas que ainda preservo. Depois a licenciatura em arquitectura, foi um contributo importante para aprender a materializar digitalmente as minhas ideias. Durante o curso também me apercebi que naturalmente o meu gosto incidia sobre o design, dava-me muito prazer quando tinha que organizar graficamente os portefólios em livro. Este gosto era complementado com trabalhos simples, logotipos e cartazes que ia desenvolvendo para amigos, até se desenvolverem em algo mais sério.

Como surgiu a tua paixão pelo mundo das publicações independentes?

Em mil novecentos e noventa e dois estive nomeado para Bebé do Ano da revista Maria, portanto ainda antes de saber ler, iniciei me no mundo das revistas. Apesar de não ter conquistado o título, a Maria continua a ser a fiel companheira na casa dos meus pais. Apenas acrescentei este pormenor por achar alguma piada, vou saltar outras publicações desinteressantes e/ou vulgares e avançar para as publicações independentes que é algo muito recente, foi o aparecimento do manifesto que catapultou a descoberta desta panóplia de oferta e me deu a conhecer este mundo.

NEW PHILOSOPHER

Esta revista cumpre um requisito que considero fundamental, possui conteúdos editoriais de qualidade aliados a um design harmonioso. É cativante ler esta publicação, a cada número elege uma temática da actualidade (p.e: “Who cares about climate change?” ou “You are what you eat”) e reune várias perspectivas de escritores, filósofos, historiadores, antropólogos e pessoas na área da ciência a darem o seu contributo em torno do tema principal. As capas são feitas pelos espanhóis Studio Carreras e a publicação é Australiana, os mesmos autores também possuem outra publicação muito interessante: a Womankind.

NEVOAZUL

Foi uma suave lufada de ar fresco. A Inês tem o dedo para escolher ou escrever os textos que nos prendem a cada página, o Pedro para os organizar graficamente em perfeita simbiose. Acordo cedo e na tranquilidade do pequeno almoço, retiro um pedaço da Nevoazul para digerir. Advertência: Deve-se ler com muita calma.

DELAYED GRATIFICATION

Permanecendo no modo de calma, esta publicação de slow jornalism, faz o exercício de dissecar noticias que foram destaque nos meses anteriores. Gosto da abordagem que é feita permitindo ter uma percepção menos superficial dos acontecimentos, conciliando estes conteúdos a um grafismo agradável.

BERLIN QUARTERLY

É uma publicação que li apenas o fifth issue, mas foi o suficiente para me convencer com os conteúdos de poesia e ficção mas sobretudo o mais cativante foi a reportagem sobre os Ciganos do Alentejo. Um texto que nos apresenta esta comunidade marginalizada que ainda preserva tradições primordiais complementada pelas fantásticas fotografias do Daniel Costa Neves.

INSIDE

Esta opção é naturalmente tendenciosa mas nem por isso compromete a genuína qualidade da publicação. Faço parte de um grupo de treino liderado pelo Paulo Colaço, o projecto run4excellence, que dinamiza várias iniciativas em torno da temática da corrida. Esta revista é um dos projectos iniciados por ele, nos primeiros números com edição gráfica do Rafael Oliveira, nesta última edição e nas futuras ficarei eu encarregue desta função. Arrisco-me a dizer que não deve haver outra revista neste segmento com conteúdos de qualidade equiparável. São entrevistados os melhores especialistas de corrida (fisiologistas, treinadores…); existe uma secção destinada a aprofundar o percurso de um atleta emblemático do passado; o experiente fotografo André Brito produz imagens exclusivas para cada edição; tem um segmento dedicado à arte, onde no último número é dado destaque ao trabalho do fantástico ilustrador Pedro Codeço. (entre outros artigos)

Se fosses editor e tivesses recursos infinitos, como seria a tua publicação ideal? 

Cosmos! A beleza na terra e no universo. É natural que este desejo foi propulsionado pelo grande Carl Sagan, responsável por tornar acessível e estimulante o entendimento de questões complexas da ciência. Uma publicação que tanto poderia revelar assuntos da micro escala terráquea, por exemplo, de um génio poeta com oitenta e nove anos que escreve todos os dias autênticas obras de arte nunca publicadas. Ou de uma descoberta mais recente, do nosso maravilhoso universo, o último contributo por exemplo de informação sobre buracos negros, a observação de outras galáxias ou estrelas. Teria que existir alguma coesão entre os assuntos abordados, mas o objectivo principal seria a divulgação do conhecimento. Desde o ínfimo grão de areia que é o nosso planeta, daquilo que somos, para viagens maiores em busca do conhecimento do que nos rodeia e que também fazemos parte.