A minha pilha é a maior, Ana Tigre

 

“A minha pilha é a maior” é uma serie de entrevistas a leitores apaixonados por publicações independentes. O mote: uma entrevista, uma pessoa, cinco revistas. Nesta edição a multifacetada Ana Tigre dá-nos a conhecer a sua pilha.

 
 

Quem é a Ana?

A Ana. A Ana tem vinte e cinco anos de idade, desde sempre e para sempre, guardando uma pequena-grande criança dentro de si que enaltece uma incontrolável curiosidade e entusiasmo pelo saber mais e pelo fazer sempre mais. Em adulta, as vontades alteram-se, menos a perseverança. Nunca tive medo de trabalhar, talvez por isso, esta vontade pelos fazeres, seja mais que uma vontade — uma necessidade.

Sou natural do Porto, ainda que o sangue pulse nas periferias de Estarreja, onde fui criada pela avó Emília, cuja fragrância do avental ainda se prende a mim em noites mais agitadas, e pelo avô Neca que me recebia pela janela, como se de uma encomenda se tratasse, das mãos do meu pai, para as dele — surpreendentemente grandes e quentes.

Considero-me da terra, forte apologista de um bom banho de lama, lavar com o corpo as carpetes no terraço em xisto, receber banhos de mangueira para tirar os mosquitos que se prendiam a mim, e fechar o dia com os pés do meu primo Miguel na minha testa, a comer bolo de laranja. Tive uma infância d’oiro, e é com e a partir dela que me projeto num percurso ambicioso, nunca desaprendendo os valores, vontades e afetos. Hoje, com mãos maiores, braços maiores, nariz maior e pés maiores. A brilhante escritora Margaret Atwood descreve o meu mote de vida, nesse sentido, numa frase curta, mas suficiente para o entendimento de quem sou: “In the spring, at the end of the day, you should smell like dirt.”

Fala-nos um pouco sobre o teu alter-ego, a Ana Tigre.  

A Tigre. A Tigre surgiu de uma brincadeira inocente entre colegas de trabalho. Cada um teria o seu animal. A mim, foi-me entregue, aleatoriamente, um papel com “O TIGRE”. Foi um apelido que acabou por se prender a mim e, com o tempo, existiu um refletir sobre o porquê ‘Tigre’, e como tirar partido desse quase-alterego. Na verdade, existem, efetivamente, características do animal com as quais me identifico. E é também engraçado pois, quem me vê fisicamente, muito dificilmente vê um tigre (Risos). Hoje, é o nome com que assino projetos e também o nome que se apresenta num primeiro confronto com possíveis clientes e curiosos.

De profissão, sou designer de comunicação. Contudo, no ano de 2012, o design ressurge em mim de um modo mais vigoroso, no âmbito do design social e de intervenção. Realizei o Mestrado em Comunicação na Escola Superior de Artes de Design de Matosinhos, tendo sido o meu foco, nessa etapa — em conjunto com a minha indissolúvel ligação à educação e à prática de projetos que tornassem possível a harmonização entre o design e áreas científicas, da literatura e estudo do meio — a criação de um serviço educativo que tinha como premissa aliar o design e ferramentas que nele se compreendem para o auxílio das práticas pedagógicas inerentes à motricidade física, percepção do espaço físico e do pensamento crítico na criança. Este projeto era direcionado a territórios de maior sensibilidade e precariedade. ‘Ulisses’, o projeto, é um objetivo ainda por cumprir. E, quando se reunirem condições, vai ser cumprido. Espero!  

No entanto, o amor é distribuído. Não existe na minha vida apenas um grande pilar — que é o Design —, mas três outros grandes pilares: a escrita criativa, a fotografia e o editorial como disciplina e prática.

Como surgiu a tua paixão pelo mundo das publicações independentes? 

De regresso aos anos noventa (’97)... É, para mim, impossível não me recordar do meu primeiro ‘emprego’. Nessa altura, a minha avó era costureira e, desde sempre, apaixonada pelo ato de cozinhar. Mais importante, ver o imenso prazer que os que para quem cozinhava tiravam das refeições. Por essa razão, acumulava pilhas e pilhas de livros de costura, culinária, tricot, ponto-cruz, etc.

Olhava para as revistas e pensava que a minha avó não daria por falta de algumas. Pegava num saco de palha entrançada e ia, de porta em porta, até à estação de comboio sozinha, obviamente inconsciente dos perigos que podiam surgir, compenetradíssima em vender cada revista por $20 ou $50. Quando vendia as revistas, ia direta ao quiosque da vila comprar edições da Rua Sésamo, do Pato Donald, os irmãos Dalton. Talvez tivesse sido aí, nessa vontade que exigiu de mim desenhar uma solução que me garantisse os livros que eu queria desenfreadamente ler, que se notou esse interesse pelas publicações. Ainda hoje as guardo. E o perfume perdura, inalterado.

A BD que mais prazer me dava ler — pelo mistério, pela aventura desmedida, pelos dissabores, pelo desconhecido e pelo torná-lo claro, pela existência de um fiel companheiro que se mantinha sempre ao seu lado — era o Tintin e o seu Milu.   

Quais são as tuas 5 publicações favoritas?

KINFOLK

A minha relação com a Kinfolk vem desde 2012, quando comecei a perceber os conteúdos que nela eram abordados com irremediável delicadeza, fluidez, existindo uma sempre-presente preocupação no modo como o leitor a vê/lê, bem como, as suas sensibilidades e perceções. Através de temáticas como lifestyle, uma panóplia de receitas perfeitamente descritas e excepcionalmente manobradas a nível do suporte, vi-me assustadoramente espelhada numa edição muito especial para mim — a Home Issue, que só consegui adquirir este ano.
Por fim, refiro uma edição que, a meu ver, foi uma das mais marcantes no meu palmilhar pela casa dos vinte — uma edição de inverno, ‘The Aged Issue’, na qual foi abordada uma perspetiva de uma beleza indescritível: “the capability to let your self age gracefully”. 

 

THE GENTLEWOMAN

Este projeto é, a meu ver, um pilar de grande peso naquilo que é o universo das publicações independentes. Não só pela pertinência, franqueza e força dos assuntos que são nesta revista esmiuçados e comunicados com destreza e sensibilidade, mas pela forma como a mulher veste um papel basilar, prioritário, urgente. Aqui, o que a mulher, jovem, menina diz, sente, coloca em perspetiva, questiona, partilha é igualmente importante e justamente destacado.
É um projeto que pontua o suporte físico com artigos de moda mas, além disso, que potencia e traz para a mesa um conjunto de perspetivas díspares e contrastantes de várias personalidades femininas.
Nelas não são só distinguidas personalidades inerentes ao universo da moda, mas também de outras indústrias. Entre várias, destaco Sofia Coppola, fotografada por Inez & Vinoodh e descrita por Holly Brubach; uma feroz exposição de mulheres na política como Nicola Sturgeon, a primeira ministra da Escócia; a extraordinária escritora e atriz Phoebe Waller-Bridge; a brilhante escultora Phyllida Barlow e a bailarina Francesca Hayward, uma artista, em todos os sentidos da palavra, cantora e compositora Laura Marling, entre tantas outras personalidades distintas.

 

ANOTHER ESCAPE

Another Escape é um projeto autónomo e carismático que me cativa e me prende pelo seu pólo aventureiro e espólio de artigos dedicados à vivência e sobrevivência em vários pontos do mundo; pelo seu caráter descritivo de cada viagem, experiência vivida e intensamente vivida.

É uma revista que se encerra na sustentabilidade, carisma e intensidade das personalidades e percursos de quem vai palmilhando, relatando, com detalhe, características de outras raças, formas de estar e de ser díspares, de outros sabores e fragrâncias, lugares que não são nossos, mas que passam, naquele momento, a ser um pouco nossos também.

 

THIS IS PAPER

Alexander Zaharov e Zuzanna Gasior fundaram o estúdio This is Paper em 2011, em Warsaw. Foi nesse ano que, assiduamente, acompanhava as suas publicações mais tímidas, mais receosas de críticas exteriores, até ao presente — um estúdio multidisciplinar, que se centra em três premissas:
A revista física e online — a produção do suporte que explora e comunica temáticas várias como o planeamento de eventos, design de comunicação, curadoria, arquitetura, interiores, moda, fotografia, técnicas de impressão, artes visuais e vídeo;

A produção de objetos de qualidade. This is Paper é uma empresa que se foca na produção de objetos manualmente produzidos em linho ou algodão orgânico, tendo como objetivo contaminar o maior número de produtores e craftsmen neste sentido: uma produção biológica, eco-friendly que reduz o risco de poluição e trabalha no âmbito de preservar os meios naturais. O mote desta equipa — cujo trabalho é de excepcional valor — é ‘WHAT WE SAVE, SAVES US’.

A Mãe Natureza — realizar métodos de produção de mínima contaminação, utilizando ferramentas e suportes de fácil alcance, que não exija, nunca, a utilização de equipamento industrial e métodos de produção massiva. 
 

THE COLLECTIVE QUARTERLY 

Este é um dos exercícios editoriais que mais prazer me dá partilhar. Trata-se de uma documentação e, por consequente, da publicação da vida e trabalho/projeto de quem vive a vida com propósito. Esta é uma revista que se coloca em confronto com grandes adversidades, na medida em que procura tornar público, atingível, credível realidades que não a nossa; realidades que não providenciam conforto, calor, afeto. E esse é um trabalho de campo que é preciso ser feito com alguma frieza e distanciamento mas, ao mesmo tempo, fazê-lo ciente de que deve ser comunicado de forma entendível e não remediada.
The Colletive Quarterlerly fazem-me acreditar no impacto avassalador que a comunicação por palavras, sons, imagens tem. E é através de ferramentas, suportes e, sobretudo, a contínua presença de uma vontade querer dar voz a quem não consegue verbalizar as suas opiniões e conferir propósito àquele ser, àquele lugar. Este é um projeto embrionário que visa, a partir da comunicação visual e editorial, a procura e consequente descoberta. Por todas as razões e mais alguma, este é um exercício que se encaixa em mim. 

 

Se fosses editora e tivesses recursos infinitos, como seria a tua publicação ideal?
 

Esta questão é talvez a mais simples e, ao mesmo tempo, a mais difícil de responder, no sentido de que devo mantê-la curta, objetiva e ciente de que não posso nomear os infindáveis conteúdos que considero pertinentes, mas que gostaria que aqui estivessem listados. Sempre nutri um enorme prazer por escrever. Bastante mais do que por ler, confesso. Assim, imagino-me responsável pela produção e estruturação dos conteúdos a publicar.

Posto isso, respondendo à questão, a minha publicação ideal, repartir-se-ia em várias publicações multidisciplinares, universais. Desde temáticas mais globais, como questões sociais (ecologia, feminismo, o papel da mulher na sociedade), o questionamento sobre o estado da arte, a questões mais concretas, direcionadas a práticas específicas como o design de produto (a produção manufatureira, por ex.), design editorial, técnicas de impressão e pós-produção, literatura na infância, a relação do ser humano com o mundo natural, a tirania e dureza aliados aos projetos embrionários emergentes — como a revista Weapons of Reason e Intern referem: ‘Como é ser ‘freelancer’ no seu país?’ —, o papel que a criança desempenha na contemporaneidade, e como é que a ‘escola’ que se pratica atualmente beneficia os alunos versus uma ‘escola’ que visa o acompanhamento personalizado de cada aluno, pois cada um é diferente do próximo (tirando partido do discurso extremamente útil de Tiago Pedras, numa última conversa no espaço Manifesto). Essas seriam as questões-chave.

Existiria um conjunto de que pessoas que cruzassem este meu interesse pela aprendizagem, pela publicação, pelo editorial. Um espaço de debate ilimitado. Mais importante, pela exploração de territórios desconhecidos, pela viagem que se faz saindo do lugar, pela viagem que se faz sem sair do lugar, pelo regresso, pela exploração de lugares dentro e fora de nós. 

Num formato material, existiria um objeto físico, um livro-objeto que compreenderia os conteúdos que seriam considerados pertinentes para serem comunicados não só textual, como visualmente — através da fotografia, por exemplo. Sempre acompanhado de uma plataforma web, que nos permitiria ‘brincar’ e aliviar a densidade de determinados assuntos nas redes sociais.