A minha pilha é a maior, Ana Types Type

 

“A minha pilha é a maior” é uma serie de entrevistas a leitores apaixonados por publicações independentes. O mote: uma entrevista, uma pessoa, cinco revistas. Nesta edição a Ana Types Type - uma das designer/ilustradora mais promissoras da nova geração portuense - revela-nos a sua pilha.

 
 

Quem é a Ana?

Nasci no Porto, mais concretamente em Gaia, pertenço orgulhosamente à geração de oitenta ainda que só tenha lá posto um pé sorrateiro.Talvez seja isso que me faça pertencer mais ao boombap que ao trap. Cresci numa casa com quintal a desafiar a gravidade de uma bicicleta – tenho muitas medalhas no joelhos – e a mudar os cantos à casa para parecer que mudei de sítio.  

Sou designer de profissão e de paixão. Sou uma apaixonada por contrastes e uma acumuladora de pancas no resto do tempo livre.Tenho a panca dos padrões e das cores lisas, das fachadas e dos chãos, dos clichés e das imagens abstratas, das viagens e das pessoas, das plantas e da comida, dos detalhes, das imagens digitais e do cheiro a papel de um livro novo. 

Fala-nos um pouco sobre os teu pseudónimo a Ana Types Type.

A Ana Types Types é o nome com que assino os meus trabalhos.

Surgiu ainda durante a faculdade, enquanto estava a desenvolver a minha panca por padrões e tipografia num pequeno livro em acordeão que produzi para uma cadeira de técnicas de impressão e de ilustração. Ganhei algum afecto ao nome, razão pelo qual o mantenho, ainda que, acutalmente, a tipografia seja mais uma ferramenta que um exercício, tendo vindo a trabalhar mais no campo da ilustração. Comecei um projecto pessoal de ilustração em torno dos padrões que tanto prazer me dão a fazer e o feedback foi muito positivo. Os trabalhos de ilustração têm me deixado muito feliz e motivada ao longo dos últimos anos. São projectos desafiantes e têm vindo de contextos muito diferentes. Esta exigência/ capacidade de me ter de  adaptar a um meio ou a um suporte diferente, esta ideia de tentar ser um camaleão fascina-me. Já tive a oportunidade de ilustrar mais do que um fato de banho, de ilustrar um fundo de um concerto de uma artista que admiro imenso, de ilustrar montras e cães de louça e claro o trabalho mais desafiante de todos que é a ilustração editorial. Aconteceu a primeira vez para o serviço educativo da casa da música e mais recentemente na minha colaboração com o gerador. A ilustração editorial para mim é sempre um desafio muito interessante porque tem uma relação muito próxima com as palavras, às vezes tem de as sublinhar, outras vezes tem a intenção de as subverter ou brincar com elas, acaba por ser um trabalho de acentuação ou atenuação. 

Como nasceu a tua paixão pelo mundo das publicações independentes?

Não consigo precisar quando é que essa paixão surgiu, no entanto lembro-me que foi crescendo durante a faculdade. A par do interesse em explorar o "livro" enquanto objecto complexo e rico – papéis, técnicas de impressão, materialidade, peso, formato, conteúdo; fui explorando estas questões a par dos meus colegas e fomos participando em algumas feiras de publicação que eram o pretexto ideal  para produzir novas fanzines. Fui coleccionando e trocando algumas e continuo a ser uma assídua compradora das que vou encontrando por aqui e por ali. Em 2011, criei um nova edição limitada do livro em acordeão que me deu imenso prazer a fazer. Era uma série de 15 livros que Ilustrei e encadernei; fiz longas pesquisas de papéis e fitas de veludo por todas as lojas do Porto para poder criar um objecto contrastante e rico, até o envelope personalizei. Como valorizo imenso a experiência de receber um livro por correio, quis proporcionar a melhor que consegui a quem estava a apoiar o meu trabalho.

Qual é a primeira revista que te lembras de ler?

Esta é fácil.

Os almanaques da Disney, sem sombra de dúvidas. Devorava um de dois em dois dias, na altura do verão, enquanto enfrentava as esperas mais longas para que fizesse a digestão e pudesse saltar para a água novamente.

Quais são as tuas 5 publicações favoritas?

Vou escolher 5 revistas muito diferentes porque cada uma delas me cativa por razões diversas e muitas vezes contrastantes. Sou um pouco compulsiva a consumir revistas e não me importo de arriscar numa nova. Daí que tenha muitas edições singulares cá por casa e que não me prendo necessariamente à ideia de seguir fielmente uma revista, ainda que admire o criterioso e intenso trabalha dos editores.  

KINFOLK

A Kinfolk trabalha a sua estética minimal e etérea tão bem que consegue imprimir-me o poder de abrandar e de dispensar de tempo para a ler.

Folheio-a com a certeza que me fará pensar fora da minha zona de conforto sem me aperceber que saí dela, porque percorre temas que me interessam mas para os quais não tenho tanta facilidade em encontrar autores ou artigos que os abordam com a densidade e com a leveza gráfica que ela consegue. 

RIPOSTE

Conheci a Riposte muito, muito recentemente. Tanto que ainda não acabei de ler de uma ponta à outra a que tenho cá em casa. Chamou-me a atenção pela capa, mas quando a folheei prendeu-me por lhe ter encontrado semelhanças com o rap, na sua atitude bold e irreverente. Tem uma estética muito própria – por vezes é muito crua, noutras mais polida; é irreverente ainda que não ponha de lado imagens calmas. Tem sido uma agradável surpresa lê-la e ficar inspirada, o facto de não a conseguir prender a nenhum estilo gráfico, nem a nenhum núcleo restrito de mulheres, faz com que a seja bastante inclusiva na forma como trabalha a temática a que se propõe.

PRINTED PAGES

Gosto muito da Printed Pages, acho particularmente bem escrita e equilibrada entre descrições mais curtas sobre alguns artistas, citações e artigos mais profundos que abordam questões de processo, comunidade e política. Tem uma selecção criteriosa e alargada de trabalhos dentro do campo artístico, variando entre ilustração, design, fotografia, arte contemporânea e quotidiano. Sem dúvida uma das minhas favoritas. Gosto particularmente do facto da revista e do blog se alimentarem reciprocamente.

SLANTED

Acho interessante o mote de ser escrita sobre entrevistas a pessoas no país onde vivem e trabalham. A viagem até ao destino de escrita condiciona completamente quer a perceção do próprio trabalho dos estúdios, quer as perguntas que surgem in loco. Admiro imenso o conceito da revista. Penso que proporciona uma experiência muito rica para a equipa que a trabalha trazendo para nós leitores séries de entrevistas (que também são disponibilizadas em vídeo gratuitamente) assim como uma selecção de trabalhos/ estúdios com uma cuidada curadoria. Acredito que é uma representação muito real do contexto gráfico de cada país a cada edição.

WRAP

A Wrap é feita de pequenos detalhes e de grandes artigos. Identifico-me completamente com o objecto quer em materialidade quer em termos de conteúdo. Terei imensa pena se não continuarem a produção da revista uma vez que o último número saiu em 2015 e actualmente a Wrap se tem dedicado mais à produção de objectos de estacionário ilustrados. O que me faz achar a Wrap encantadora é o facto de a cada edição convidar 5 ilustradores para uma entrevista e lançar-lhes o desafio de desenhar num papel de embrulho que virá posteriormente agrafado ao objeto; a par destes ilustradores convida também um outro para ilustrar a capa da edição.  É com a certeza de que vou ver um trabalho novo de um ilustrador que admiro, como se fosse visitar uma exposição nova, que folheio entusiasticamente a revista e me perco entre as ilustrações e os artigos. Gosto imenso de ler entrevistas, sou uma curiosa. Gosto de ficar a par e de comparar metodologias, espaços de trabalho, opiniões e abordagens, como forma de voltar a mim diferente ou de convicções reforçadas. 

 

Se fosses editora e tivesses recursos infinitos, como seria a tua publicação ideal?

Uma publicação de recursos infinitos é extremamente fácil de imaginar que rapidamente se poderia tornar num objecto de grande complexidade. Para mim a publicação ideal passaria por reunir uma equipa de pessoas que considero inspiradoras e partirmos em viagem para temporadas em locais a explorar.

Em termos de temáticas, se é a minha publicação ideal, poderia ser tão abrangente quanto ter entrevistas com rappers dos sítios em questão, desenhos de botânica local ou receitas típicas e quem e como as faz. Faria um esforço para que o objecto final fosse uma viagem sensorial às coisas que nos inspiraram e nos apaixonaram no sitio – a comida, a música e a criação artística na sua generalidade. Visitas, entrevistas e registos fotográficos dos diferentes estúdios, artesãos, músicos, espaços inspiradores, retratos de rua seriam uma constante parte do seu processo de edição. 

Enquanto objecto não o consigo materializar, mas antevejo que seria um objecto pouco consistente de edição em edição; com a certeza que não poderiam faltar receitas, ilustrações comissariadas a estúdios locais, tirar partido dos recursos e técnicas de impressão presentes em cada um, guias de sítios para visitar na cidade, uma faixa sonora complementar e alguns materiais impressos de oferta que refletissem essa experiência acutilante e transformadora.