Gente do Papel: Re.vis.ta

 
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Quem são a Flávia e a Rita? 

Duas amigas. Conhecemo-nos no curso de História da Arte na FCSH-UNL em 2006, uma seguiu mestrado em História da Arte Contemporânea na mesma instituição e a outra Estudos Curatoriais nas Belas-Artes, Lisboa. Em 2013 começámos a Revista 4 e em 2016 a Re.vis.ta, que desenvolvemos no nosso tempo livre.

 

O que é a Re.vis.ta? 

A Re.vis.ta é uma publicação impressa, sem periodicidade fixa. Define-se como espaço de reflexão, crítica e divulgação para as artes visuais, com particular incidência na produção artística contemporânea. Tem como foco o campo artístico português e considera de forma coerente as relações com o contexto internacional. 

 

O que vos levou a criar a Re.vis.ta? 

A Re.vis.ta é uma consequência da Revista 4, o primeiro projecto que realizámos no campo da publicação e edição. Na altura em que estávamos a terminar os mestrados (2012) chegámos à conclusão que não existiam praticamente revistas de arte impressas em Portugal. Depois da histórica Colóquio-Artes, e com o fim da Arte&Leilões e da L+Arte, (formatos que não nos interessavam tanto), restavam e restam ainda as revistas académicas, suplementos culturais de jornais como o Público e o Expresso e alguns formatos mais interessantes como a Intervalo, a Nada

Avançámos então com o projecto da Revista 4. Uma publicação com um fim anunciado à partida, que não cabe no campo da divulgação, nem tem o peso da Academia. 

Foi depois dessa experiência que parámos para repensar a nossa noção da categoria revista e por conseguinte de crítica. Cada Re.vis.ta é um exercício que procura encontrar essas respostas. 

E porquê o nome Re.vis.ta?

A verdade é que não temos muito jeito para nomes, e a nossa ligação à Historia da Arte leva-nos a pensar (demasiado) na força e significado que os títulos podem ter. 

A Revista 4 remetia objectivamente para a quantidade de números que seriam editados. A Re.vis.ta remete de forma autocentrada para a tipologia da publicação. Interessa-nos pensar o que é uma revista. A divisão silábica está ligada a uma ideia de tempo, cadência e desaceleração. Assumimos para nós, quando começámos este projecto, que íamos fazê-lo ao nosso ritmo. Foi a olhar para o dicionário que escolhemos o nome. 

 

Falem-nos um pouco do vosso papel como editoras da revista

Cada revista é desenhada como um todo. Pensamos no objecto como resultado global e ponderamos cada texto na sua relação com os restantes e com as revistas anteriores. Não existe um tema geral, à parte da incidência na arte contemporânea. O que privilegiamos são formatos ou tipologias de artigo. Temos sempre um texto escrito por um artista, investigador, ou curador que esteve ou está uma temporada fora de Portugal. Um conjunto de perguntas relacionado com um tema único, garantindo várias perspectivas sobre um assunto. Um segmento dedicado a exposições, mais ou menos três por número. Um bloco com cerca de três textos livres, ou seja que não cabem em nenhum dos outros formatos. Privilegiamos conversas de curadoria e análise de livros. E por fim deixamos lugar para um texto que reflecte de forma autocritica o trabalho de uma plataforma artística.

Em cada número convidamos um artista, para produzir um objecto que acompanha a revista mas que pode ser independente: um cartaz, um múltiplo, … 

A escolha dos autores é outro ponto essencial. Trabalhamos sempre com quem valoriza a reflexão, o tempo, a impressão em papel. Estamos empenhadas no cruzamento de gerações, sem hierarquia. Convidamos e recebemos autores que nos interessam ler. Informalmente, trabalhamos com algumas pessoas em continuidade.

 

Um factor que distingue a Re.vis.ta de outras publicações é o seu formato inovador. Podem explicar qual é o conceito por detrás deste formato tripartido? 

Os créditos do formato são todos da Sílvia Prudêncio que desenhou uma revista belíssima.

Como trabalhamos com um apoio não financeiro da Impressa Municipal de Lisboa, adaptamo-nos ao material e às condições que a gráfica fornece. Portanto quando falámos com a Sílvia, pedimos uma revista agrafada, de baixo custo, para impressão digital. Definimos também os formatos de artigo. Desde a Revista 4 que acreditamos que o design é fundamental para pensar a estrutura do objecto.

A proposta que a Sílvia nos apresentou superou de longe as nossas expectativas. Desde a utilização do título como elemento tipográfico na capa, até à separação dos cadernos por cores e níveis que abraçam o núcleo central. É uma revista muito delicada, elegante e frágil. O design reforça a importância e o cuidado da leitura. 

 

Quem são os vossos leitores?

Nunca sabemos muito bem. Idealmente pensamos em estudantes, profissionais do meio e todos os quem têm interesse sobre o campo da arte contemporânea. 

O primeiro número da Re.vis.ta teve uma tiragem de 200 exemplares. Feita a distribuição e algumas reposições, ficámos sem nada. Aumentámos entretanto para 300 exemplares. Vamos tendo feedback de amigos, conhecidos e por vezes de pessoas que não esperávamos.  

 

A Re.vis.ta número 3 acaba de chegar às prateleiras. Podem falar-nos um pouco sobre os temas abordados nesta edição?

De forma resumida, este número abre com um texto do Bruno Marchand, o investigador/curador fala-nos da sua experiência em Genebra. As exposições discutidas são: Pynchon Park de Dominique Gonzalez Foerster, no MAAT, Lisboa, por Daniel Peres; a obra Eldorado XXI e Mont Ananea de Salomé Lamas por Luís Mendonça; 4.56.20 de João Tabarra na Solar – Galeria de Arte Cinemática, Vila do Conde, por Sabrina D. Marques; e José Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno & Amadeo de Souza Cardoso / Porto Lisboa / 1916-2016 por André Silveira. No núcleo destinado às perguntas o tema é o Mercado artístico em Portugal, discutido por artistas, galeristas, professores, investigadores, curadores e coleccionadores. No segmento das Conversas sobre curadoria, o João Mourão e Luís Silva convidaram a Markéta Stará Condeixa. O Gerbert Verheij e a Luísa Salvador falam com os editores da Imago e a Filipa Valladares escreve um artigo sobre as publicações independentes em Portugal. Convidámos Uma certa falta de coerência para falar do projecto que tem lugar no Porto desde 2008 e por fim o encarte é da artista Gabriela Albergaria.  

 

Na vossa opinião, a produção artística portuguesa está de boa saúde?

Vemos a Re.vis.ta em primeira instância como uma resposta concreta ao contexto artístico português. Desde o primeiro momento achamos determinante a recepção crítica como reacção ao que hoje se produz em Portugal. Essa reflexão contemporânea parece-nos determinante para a manutenção da boa saúde da produção artística. Achamos que a produção e exposição estão melhor que a recepção e isso é um problema. Há pouco registo, pouca discussão. Não excluímos o que se faz lá fora, mas acreditamos que o foco deve partir do que está mais próximo, para depois analisar os cruzamentos e as constantes ligações com um mundo globalizado.    

 

Como vêm o panorama atual das publicações independentes em Portugal?

Curiosamente neste 3º número propusemos à Filipa Valladares que olhasse para o que tem sido feito no campo das publicações independentes em Portugal nos últimos 20 anos, neste artigo a Filipa propõe um levantamento e consequentemente, um balanço. 

Este convite surge a partir da constatação do exponencial crescimento de publicações independentes, com forte expressão no aumento das livrarias, feiras e exposições. Este é inevitavelmente um lugar com o qual sentimos afinidade, mas é também uma resposta activa, criativa e inteligente por parte da comunidade artística face aos problemas levantados pela economia. 

 

Além da Re.vis.ta, que outras publicações destacam?

Destacamos os pares e as referências: a extinta Pangloss, as revistas Punkto, Intervalo, Cine qua non (CEA-UL), Marte (FBAUL) e a Revista de História da Arte (IHA-FCSH); no contexto internacional as revistas October, Afterall e a The Exhibitionist.

Regressando ainda a este último número da Re.vis.ta, voltamos o foco para a excepcional colecção Ymago, uma editora independente que tem vindo desde 2010 a publicar em português, autores que pensam a imagem.

A RE.VIS.TA está à venda no Manifesto.