A minha pilha é a maior, Raquel Rei

 

“A minha pilha é a maior” é uma serie de entrevistas a leitores apaixonados por publicações independentes. O mote: uma entrevista, uma pessoa, cinco revistas. Nesta edição a Raquel Rei - um das designers que imaginou e criou a imagem do Manifesto - revela-nos a sua pilha. 

Quem é a Raquel? 

Designer gráfica de formação, sempre foi a materialidade das coisas que a cativou. O papel, a textura, a impressão, o volume. Livros, embalagens e tudo que só exista quando se pode tocar, interagir, usar. Vive no processo e quer ser designer de objectos. Gosta de plantas, de cães e de mar.

Fala-nos um pouco da tua ligação com o design editorial.

Lembro-me de ser pequena e de, muito frequentemente, as brincadeiras começarem com a produção de caderninhos com folhas A4 brancas e agrafos, para depois usar como professora, médica, empregada de mesa, recepcionista. 

Sempre gostei da sensação de abrir um livro novo ou começar um caderno que até então estava em branco. Não tenho a certeza, mas penso que é a sensação de descoberta, seja ela do conteúdo que estou para consumir nesse livro novo, ou do que eu própria vou fazer daquele objecto… como o vou preencher. Tenho muitos cadernos em branco, porque gosto muito deles e não os quero usar da forma errada, portanto, ficam à espera do momento deles na minha prateleira.

Talvez tenha sido esta luta entre a vontade de intervir e a ansiedade ou nervosismo sobre a forma como o vou fazer que me trouxe até ao design editorial. Como designer, cada vez que começo a desenhar um livro volto a este estado de entusiasmo e medo. E adoro essa sensação. 

Como surgiu a tua paixão pelo mundo das publicações independentes?

No início de 2009, no último ano da licenciatura nas Belas Artes do Porto, comecei com um grupo de amigos uma publicação independente de carácter teórico sobre design em Portugal, a Pangrama. Sem saber muito bem onde nos estávamos a meter, a Pangrama apareceu precisamente no momento em que tínhamos todos vontade de intervir, de deixar a nossa marca, a nossa opinião, e ao mesmo tempo de desenhar e de ver trabalho publicado. A Pangrama era (tentou ser) anual e teve 4 números. Todos os números eram assumidamente números zero, porque nos agradava a ideia de não ter compromissos nem a nível editorial, nem gráfico. A experimentação era o que nos fazia continuar com o projecto. 

Até à Pangrama não tinha muita noção do mundo de publicação independente que viria a descobrir. Como estava a iniciar o meu percurso como designer também nessa altura, tudo era fascinante, tudo era válido para consumo: conteúdo, objecto, grafismo. 

Mais ou menos em 2011, o Porto acordou para a publicação independente e a cidade fervilhava eventos, feiras e produção de material novo. Houve muita atenção dada ao tema, não só por artistas, designers e organizações independentes, como pelas faculdades de design, e muita coisa internacional começou a ser acessível. Foi nesse ano que decidi especializar-me em design editorial o que fez a paixão crescer, não só por aumentar, mas por efectivamente evoluir para uma versão mais madura. Apesar de continuar a guardar religiosamente fanzines com tiragens de 10 ou 20 exemplares ilustrados à mão, sinto-me mais atraída por publicações com continuidade, objectivos editoriais mais concretos, com capacidade para chegar a mais gente e moldar gerações, ou então (claro) que não sejam nada disso mas estejam super bem desenhadas.

Qual é a primeira revista que te lembras de ler?

Confesso que nunca tinha pensado sobre isso e é um assunto um bocado vago na minha memória, mas lembro-me da BD da Mónica e do Cebolinha, e do Amiguinho.

Quais são as tuas 5 publicações favoritas?

MONOCLE

A Monocle é incontornável no desenvolvimento da minha paixão mais adulta por publicações. Foi das primeiras publicações deste calibre comercial com que senti empatia a nível de conteúdo e de forma ao mesmo tempo. Já lá vão muitos anos e continuo a comprá-la de forma mais ou menos regular. Também gosto do trabalho que têm feito a outros níveis, como a radio/podcasts e os livros, que na minha opinião não são só um bom complemento mas também dão mais consistência e credibilidade ao conteúdo da revista.

KINFOLK

Não posso ignorar o facto de que a leveza e a atitude despojada em termos gráficos foi o que me fez abri-la pela primeira vez. Quando apareceu encaixou que nem uma luva na forma como me andava a sentir tanto a nível profissional como pessoal e isso foi o que me fez continuar a consumi-la. Gosto de sentir que quando a leio estou constantemente a pensar sobre mim e sobre o que gosto de fazer no meu trabalho ou em casa, sobre coisas que têm tanto de levianas como de profundas, e que me fazem sentir melhor. Em geral folheio-a de uma ponta a outra a ritmo acelerado nas horas seguintes a a ter comprado, mas espero pelo sábado ou domingo de manhã para a ler. Preciso de uma certa calma e espaço para usufruir dela.

BORDA D'ÁGUA

Desde que moro sozinha que compro o Borda d’Água todos os anos. Uma coisa que descobri já em adulta é que adoro plantas. Dá-me imenso prazer mexer na terra, plantar e fazer crescer seres verdes. Inicialmente a ideia era plantar vegetais com a finalidade de ter uma pequena produção própria para cozinhar (outra coisa que adoro, juntamente com o acto imediatamente a seguir: comer), mas agora vale tudo. Apesar de ter crescido numa casa onde há arvores de fruto e vegetais plantados o ano todo, não sabia muito sobre o assunto e uma vez comprei o Borda d’Água por curiosidade. Agora o lugar dele é na sala de estar. Volta e meia vou lá ver a cábula. Também acho muita piada a toda a envolvente e aos códigos culturais que transporta consigo: a história, o conteúdo de origem popular a conviver em pleno com o cientifico, e o desenho e técnica de impressão, quase de origem, que coadunam com o resto. Espero que não mude.

ZWEIKOMMASIEBEN 

A Zweikommasieben é uma publicação suíça sobre o panorama musical noturno contemporâneo. A primeira vez que a vi foi na Motto, em Berlim. No meio daquela fartura toda, vim com ela na mão. Confesso que nunca li mais que um artigo. O tema não me toca no coração. Mas já olhei durante muito tempo, e com muita atenção para todas as páginas pela qualidade ao nível de design que ela tem. Nem sempre estou no estado de espirito gráfico onde ela se insere, mas quando estou gosto muito. Desde então já tive mais alguns números nas mãos e continuo a adorar.

MACGUFFIN

Uma descoberta recente que rapidamente entrou para o top das minhas preferências. Adoro a forma descomprometida como abordam as coisas mais triviais da vida e lhe dão significado. Atrai-me particularmente o último número (4) pela escolha de um objecto tão improvável e a forma como conseguiram curar material tão bom com base nele. Também é muito bom o mini podcast que iniciaram agora. É sem dúvida uma publicação que vai andar debaixo do meu olho nos próximos tempos. 

Se fosses editora e tivesses recursos infinitos, como seria a tua publicação ideal? 

Sem dúvida que seria uma publicação muito visual. Pouco ou nenhum texto. 

Provavelmente uma publicação só com trabalho gráfico, fotográfico em que era necessário um contexto, mas não uma língua, para a consumir. Se calhar não teria de ter páginas ou existir sob uma forma convencional. Talvez fosse acontecendo pela cidade, em objectos ou através de pessoas… Não sei. Ocorrem-me tantas possibilidades, mas sobretudo a nível formal. Se calhar não nasci para gerar conteúdo, mas antes para lhe dar forma.