Gente do Papel: Catarina, Migrant Journal

 

Quem é a Catarina?

Sou uma designer/arquitecta a viver desde o início de 2017 em Bergen, Noruega. Nasci e cresci em Bruxelas e estudei em Inglaterra. Também trabalhei em Espanha, Portugal, Holanda e França. No fundo, sou acima de tudo uma cidadã Europeia interessada em diplomacia, informação, arte e arquitectura.

O que é a Migrant Journal?

A Migrant Journal é uma publicação independente de seis números que explora a circulação de pessoas, bens, informação, flora e fauna pelo mundo e o impacto que estas migrações têm na vida contemporânea.

 
 

Como surge a ideia de lançar uma publicação sobre migração?

Comecei a publicação com o Justinien Tribillon, um amigo com formação em ciências políticas, e decidimos lançar o Migrant Journal com o objectivo de convidar vários indivíduos de disciplinas muito diferentes e variadas— desde design, artes e ciências, a política, jornalismo, filosofia e direito — não só para discutir um assunto importante, mas também para proporcionar uma perspectiva do mundo diferente, um mundo em mutação e em que as migrações são um motor de mudança.

Fala-nos um pouco do teu papel como editora da revista?

O papel de editora é polivalente e requer vários compromissos. Pensar em temas para os próximos números, seleccionar peças para incluir, estabelecer contactos com esse objectivo. Este é o lado da edição propriamente dita que é, digamos, a parte mais divertida. Porém, esta posição requer também gerir finanças, procurar fundos para a impressão e circulação da revista, organizar toda a logística — uma parte do trabalho de que nunca se fala, menos divertida, mas essencial.

Parece desafiante. E como é gerir uma equipa que está dispersa por vários países?  

Diria que um dos maiores desafios é trabalhar numa equipa que está ‘espalhada’ pela Europa (eu na Noruega, o Justinien em Londres, a Isabel Seiffert e o Christoph Miler, que juntos formam o atelier Offshore Studio, em Zurique) de forma eficaz. No entanto, apesar de longe, estamos constantemente em contacto através da plataforma de trabalho de equipa ‘Slack’. Antes de cada número estar fechado encontramo-nos para fazer um ‘workshop’ a quatro. E ainda nos juntamos para participar em eventos que são organizados pela Europa fora.

O segredo do sucesso está na equipa?

A estrutura do Migrant Journal é extremamente horizontal: somos dois editores e dois designers. Acredito que a nossa colaboração próxima é uma das coisas que faz com que o Migrant seja um projecto único.

 
 

O primeiro número da revista - Across Country - explora a migração no contexto rural. Queres falar-nos um pouco sobre o porquê deste tema?

Tanto eu como o Justinien trabalhamos muito em contextos urbanos, a nossa educação e vida profissional estiveram sempre baseados em questões ligadas ao urbanismo. Aliás, conhecemo-nos num curso de pós-graduação chamado ‘Cities’, na London School of Economics, em que arquitectos, pessoas de ciências políticas, matemática e urbanismo se juntam para estudar a cidade. Para o primeiro número, decidimos libertar-nos deste meio, explorar um espaço de que quase nunca se fala, mas que é um palco de tradições nacionais e mundiais, histórias, dramas, e polémicas que quisemos de trazer ao relevo.

Escolhe um artigo que espelhe o tema desta edição.

O Italian Limes, da autoria do atelier de design Italiano Folder. É um projecto sobre a fronteira italiana, que até agora é baseada numa linha traçada há décadas definida pelo topo dos glaciares nos Alpes naquela altura. Apesar de os glaciares se terem movido ao longo do século, a fronteira ainda está traçada no mesmo sítio — um erro. Esta equipa de designers trabalhou com cientistas e o centro de Cartografia Militar Italiano para desenvolver um aparelho que traça o movimento do glaciar e assim desenhar a linha da fronteira em tempo real, de acordo com a lógica inicial. Sendo este projecto baseado num processo bastante complexo em termos de colaborações, e também em termos de ‘meio’ — desde um aparelho, a uma instalação que fizeram na Bienal de Veneza em 2014, até ao mapa das migrações da linha da fronteira Italiana — foi um desafio mostrar o trabalho de forma holística em papel. Ao mesmo tempo, o Italian Limes toca em questões num meio não-urbano que são essenciais para perceber o conceito de migração de paisagens, fronteiras nacionais, e o trabalho produtivo entre designers e cientistas.

 
 

A Migrant destaca-se também pela sua estética. Como é que o processo criativo reflecte os valores e ideologia da revista?

O processo criativo da Migrant está baseado na colaboração muito próxima entre os designers, os editores e os colaboradores. Os designers estão envolvidos com os colaboradores para desenvolver, desde o início, as imagens que vão ilustrar cada peça. Alguns colaboradores já têm mapas, infografias, diagramas próprios, e nesse caso a Isabel e o Christoph simplesmente trabalham a imagem para ela adquirir a estética do Migrant, para se adaptar à nossa imagem. Noutros casos, desenvolvem imagens com diversos participantes — isto faz com que muitas das peças que incluímos na nossa revista adquiram de certa forma uma ‘nova vida’, graças ao trabalho gráfico. Este processo forma a base da revista, em que queremos que o trabalho entre editor e designer flua de forma produtiva e também horizontal.

 
 

Como vês o renascer das publicações impressas?

Lembro-me de um livro que a nossa designer Isabel produziu - antes da Migrant Journal existir - chamado ‘Not the End of Print’, em que ela desafiou preconceitos sobre o mundo impresso. Este foi um projecto que me fez perceber que o mundo impresso não está a morrer, apesar da acensão das plataformas online.

Penso que a Migrant Journal - como centenas de outras publicações independentes que têm nascido nos últimos anos - mostra uma atitude renovada usando a impressão como meio de divulgação. O que estas publicações têm em comum é uma energia para explorar o mundo de uma forma renovada, em que o papel tem uma função importante para transportar histórias de forma mais viva, de melhor qualidade, o que seria impossível obter online.

Além da Migrant Journal, que outras publicações destacas?

Outra publicação nascida em Londres que acho interessante é a Real Review, que também aborda assuntos de arquitectura, design e política e que tem um formato diferente. Sempre li a Vanity Fair e a The New Yorker. O que gosto mesmo é de visitar lojas como o Manifesto ou, em Londres, a MagCulture e perder-me no mundo de revistas novas sobre assuntos diversos, impressas cada uma atenciosamente e com alta qualidade, com formatos diferentes e designs editoriais de morrer.

 
 

Assinada pela equipa do Manifesto, a rubrica “Gente do Papel”  quer dar a conhecer o fascinante mundo das publicações independentes, através dos olhos de quem as produz.