A minha pilha é a maior, João Gonçalves

 

“A minha pilha é a maior” é uma serie de entrevistas a leitores apaixonados por publicações independentes. O mote: uma entrevista, uma pessoa, cinco revistas. E ninguém melhor que o João Gonçalves, co-fundador do Departamento, para inaugurar esta rubrica.

 
 

Quem é o João?

O João é um jovem obcecado por objectos físicos num mundo cada vez mais digital. Não há muito tempo atrás, terminou a licenciatura em Gestão e um mestrado em Marketing, em Coimbra. Hoje passa grande parte do tempo numa startup tecnológica - redlight, na mesma cidade. Quando não está no escritório, costuma estar a pensar em cerveja artesanal, café e revistas independentes. O João é editor do Cerveja Artesanal Portuguesa e co-fundador do departamento.co.

Como surgiu a tua paixão pelo mundo das publicações independentes?

Não consigo identificar ao certo o que despoletou este amor, mas lembro-me que começou com a Monocle há muitos anos atrás. Lembro-me de olhar para as estantes dos quiosques e ver uma revista com um design tão diferente e tão interessante que lá tive de me aventurar a comprar uma edição. A Monocle, pelo tipo de publicação que é, acabou por me abrir as portas para um mundo inteiro de referências - desde sítios para visitar, coisas para fazer, projectos para dar atenção e, claro, mais revistas para seguir. Depois disso acabei por começar a seguir as pistas e dei comigo a desejar ter uma biblioteca pessoal cheia de publicações diferentes. Hoje em dia o espaço já é pouco. 

Fala-nos um pouco sobre o Departamento. 

O Departamento é um projecto pequeno cujo objectivo é democratizar o acesso a publicações de qualidade que não têm distribuição em Portugal utilizando um método conhecido como distribuição social. Recolhemos interesse de várias pessoas sobre uma publicação e assim que esse número for suficiente para que a encomenda colectiva seja fazível - na maior parte das vezes as editoras impõem um número mínimo de cópias para uma encomenda sair, nós tratamos de fazer chegar estas publicações às estantes dos nossos clientes. A vantagem é que se torna possível adquirir publicações a preço muito mais reduzido do que quando um cliente normal tenta encomendar uma cópia do site da publicação.

 
A equipa do Departamento.

A equipa do Departamento.

 

Qual é a primeira revista que te lembras de ler? 

Lembro-me de ser assinante d’ "O Nosso Amiguinho". Era uma revista que lia quando estava na 2ª ou 3ª classe. Basicamente era de carácter didáctico. Como a minha mãe é professora primária e os conteúdos da revista até eram bastante pertinentes para a educação cívica de uma pessoa. Os meus números ainda devem andar lá por casa.

E agora fala-nos da tua pilha. Quais as tuas cinco publicações favoritas?

CEREAL

A Cereal, do mundo de publicações que conheço, é a revista que tem a melhor selecção de conteúdo textual e fotografia. Já para não falar no papel. A temática da Cereal também algo que é bastante próximo e quase um vício - viagens e descoberta do desconhecido. 

OFFSCREEN

A Offscreen é uma publicação mais ligada ao mundo offline da tecnologia. E estando eu nesse mundo e sendo tão apaixonado por um lado mais desligado e ligado a coisas palpáveis, a Offscreen é uma bom escape, juntamente com o facto de nos dar a conhecer algumas das pessoas mais da área do design e do desenvolvimento de software.

 LUCKY PEACH

A minha relação com a Lucky Peach é muito especial. Adoro gastronomia, desde a haute cuisine à comida de conforto. E a Lucky Peach, pertencendo a um grupo que percebe de forma inigualável essa dicotomia - a Momofuku de David Chang, é uma publicação que realmente procura olhar para a comida de uma forma refrescante, partilhando conhecimento e mostrando o que de melhor se faz no mundo.

MONOCLE

A Monocle acaba por ser o primeiro amor. Continua sempre relevante nas áreas que procura documentar - A - Affairs, B - Business, C - Culture, D - Design e E - Editorial, sendo que neste último, a escrita de Tyler Brulé sempre foi bastante inteligente. Apesar de já não comprar tantas edições como antes, continuo a seguir os podcasts do mundo Monocle - especialmente o The Entrepeneurs, e algumas edições especiais.

PINEAPPLE

Finalmente, a Pineapple. Apesar de só existir um número da Pineapple, esta revista representa um salto que eu adoro ver nos dias que correm - empresas dedicadas a um ramo específico que nada tem a ver com conteúdo e que, de um dia para o outro, decidem fazê-lo. A Pineapple é uma publicação do Airbnb, para fazer um showcase de locais e casas para descobrir e visitar. Tal como a Cereal, é uma maneira diferente de ver a arte de viajar.

 
 

Se fosses editor e tivesses recursos infinitos, como seria a tua publicação ideal?

Das poucas vezes que estudei Direito sempre achei bastante interessante a diferenciação entre o que estava escrito na lei e aquilo que o legislador tinha em mente quando a escreveu.  Um tema que gostava de abordar era exactamente os conceitos de fundadores, criadores, inventores de produtos e empresas conhecidas, especialmente vindas de pessoas que provavelmente nunca tiveram reconhecimento público por aquilo que criaram. Gostava imenso de explorar os momentos 'ah-ha!' de tantas pessoas, para explorar os processos de criatividade de cada um. Adoro fotografia analógica, portanto, seria obviamente uma escolha usando-a para explorar a vida, os locais de trabalho, os estúdios, os jardins, tudo o que possa estar envolvido no processo criativo. A capa seria o mais simples possível, num papel matte como o da Cereal. Com tanta descrição, já estava capaz de começar outro projecto.

*Assinada pela equipa do Manifesto, a rubrica “A minha pilha é a maior” é uma serie de entrevistas a leitores apaixonados por publicações independentes. O mote: uma entrevista, uma pessoa, cinco revistas.