Gente do Papel: Inês, Nevoazul

 

Quem é a Inês?
A Inês acredita nas imensas possibilidades da comunicação. Por este motivo formou-se em Ciências da Comunicação e tirou o mestrado na Universidade do Porto na variante de Estudos de Média e Jornalismo. A sua experiência profissional passou pela área da investigação, edição, escrita, assessoria de imprensa e gestão de redes sociais. Um percurso variado que lhe permitiu conhecer as várias vertentes da comunicação e escolher a área editorial como predileta.  Apologista de narrativas lentas e pausadas, começou a explorar o universo das publicações independentes. Leu e releu o blogue do Kai da revista Offscreen, admirou as prosas agradáveis da Granta, ficou fascinada com a constante originalidade da Brownbook e adotou a máxima da Delayed Gratification como seu estilo de vida. Em 2016 decidiu lançar a Nevoazul. uma revista sobre menos e mais, que mostra o seu interesse pelo universo editorial e pelas temáticas da calma, do minimalismo e do equilíbrio. Nos seus tempos livres ela ouve Beach House e Julia Holter no gira-discos.

O que é a Nevoazul?
A Nevoazul é uma revista onde o minimalismo, o consumismo e a sustentabilidade se aliam à cultura, à arte e à literatura. Ela representa o equilíbrio entre aquilo que somos e o que desejamos ser. Nas suas páginas podem encontrar diversos artigos que celebram um modo de vida simples, onde se elogia o consumo sustentável, a calma e a criatividade. Cada artigo, fotografia e imagem é um convite a um quotidiano equilibrado com mais conversas e menos compras, mais passeios e menos ansiedade, mais conhecimento e menos informação. O objetivo da Nevoazul é gratificar o intelecto e estimular o pensamento crítico sobre os hábitos de consumo da sociedade atual. 

O que vos levou a criar a revista?
Passei o último Inverno a pensar na Nevoazul, mesmo antes de saber que seria esse o seu nome. Os estilos de vida simples e as discussões sobre o consumo e a sustentabilidade sempre me interessaram, mas sentia que estavam a ser representados de forma errada. Aquilo que lia parecia-me sempre demasiado radical ou extremamente utópico. Eu na altura já escrevia no meu blogue Minimal sobre estas temáticas, mas sentia que não era o meio certo para o fazer. Em Abril, numa viagem de comboio pela Áustria, deixei-me levar pela calma das montanhas nevadas e decidi que queria criar uma revista impressa que despertasse essa sensação de serenidade enquanto abordava temáticas sérias que nos obrigam a pensar sobre as nossas prioridades e escolhas. Porque apesar de vivemos numa era onde a velocidade, a abundância e o desperdício dominam, eu acredito que chegou a hora de dar uma nova oportunidade à eficiência, à criatividade e à qualidade e a Nevoazul é o reflexo disso.

 
 

O que distingue a vossa revista das restantes?
O tom, a musicalidade com que se leem os artigos. Desde o início que eu e o Pedro Oliveira, responsável pelo design da revista, tomamos a decisão de ser consistentes, quer no conteúdo, quer na imagem da revista. As páginas sempre azuis que antecedem os artigos e a existência de um tema principal que guia os artigos, fazem com que as pessoas sintam uma sensação de paz e serenidade ao longo da leitura. Pode-se dizer que o silêncio é a banda sonora da revista, não há nada que grite no seu interior. Ler a Nevoazul é como sentarmo-nos na praia a ver o mar. A paisagem parece sempre a mesma, como uma pintora que estamos a apreciar, mas a maré enche e esvazia e, pouco a pouco, o mundo à nossa volta começa a mudar. 

Conta-nos um pouco como é o processo criativo da Nevoazul. 
O processo criativo da Nevoazul é um sem fim de inspirações, ideias e conversas. Quando começamos a trabalhar numa nova edição decoramos as paredes brancas e fazemos delas mural para a nossa inspiração. Cada revista tem um tema principal que nos ajuda a definir a linha editorial. Na primeira revista foi Impermanência, um conceito oriental que tem por base a aceitação daquilo que não dura para sempre e a apreciação do momento presente. Assim que definimos este tema lembrei-me logo da arte ancestral do Kintsugi que se dedica a restaurar porcelanas partidas com fio de ouro. No caso, por exemplo, do excerto do livro Caderno Afegão da Alexandra Lucas Coelho, a escolha foi baseada na ideia de mudança subjacente à história. Durante o processo criativo há sempre música, excepto à noite, nas horas do descanso, onde a falsa luminosidade dos computadores costuma dar lugar a conversas sussurradas, livros da Patti Smith e filmes do Jacques Tati. Houve dias em que acordámos às quatro da manhã para fotografar a lua cheia que serviria de musa para a ilustração na capa. Houve noites em que escrevi até às duas da manhã, quando os olhos já pediam descanso, mas o entusiasmo exigia trabalho. Depois, perto do fim, vem o cheiro das tintas, do azul no papel, das máquinas que não param. As folhas soltas, os testes de cor, os erros que se escondem. Aquilo que eu li, o que tu entendeste, o que ele viu. Re-ler, e rever. Re-escrever e compor. Noites longas, dias sem fim. Andar para trás e para a frente. Ir ao norte, correr para sul. E no fim, a paz em forma de papel. Seis meses em 120 páginas.

Quem são os vossos leitores?
Os nossos leitores são pessoas curiosas. Umas são atraídas pelo azul acinzentado da capa ou pela simplicidade retratada nos artigos, outras são cativadas pelos textos sobre o consumo e pela ideia de equilíbrio. Mas no final, a melhor característica para descrever os nossos leitores é mesmo a sua curiosidade pelo mundo que os rodeia e pelos detalhes do dia-a-dia.

Onde vês a Nevoazul daqui a cinco anos?
Idealmente, daqui a cinco anos, a Nevoazul estará mais perto dos valores que defendemos. Queremos que a nossa revista seja cada vez mais sustentável, interessante e que alcance cada vez mais pessoas. 

Estão as publicações impressas mortas?
Em 1979 os Buggles cantavam “Video Killed the Radio Star”. Agora a mensagem é a mesma, mas substituíram o vídeo pelo online e as estrelas de rádio pelo papel. Ainda assim, aqui estamos nós, a ouvir rádio, a ver televisão e a ler revistas impressas em pleno século XXI. Acho que ainda não chegou a hora de escrever um obituário aos livros e às revistas. Se há algo que a informação online e gratuita fez às publicações impressas foi torná-las um pouco mais raras, dar-lhes uma nova vida e mostrar que a qualidade continua a ganhar à quantidade. McLuhan dizia que o meio é a mensagem, e eu também acredito nisso. A informação online tem mais vantagens do que eu conseguiria enumerar aqui, desde o acesso a artigos de jornais de todo o mundo ao acompanhamento de notícias ao segundo. Mas há momentos em que queremos consumir a informação de forma vagarosa e sem distrações. Aí visitamos a estante, pegamos na nossa revista preferida e lemos. Sem pop-ups, sem links, sem vídeos. Apenas nós, o peso do papel, o silêncio e a imaginação a correr.

Como vês o panorama atual das publicações independentes em Portugal?
É com prazer que vejo o surgimento de cada vez mais publicações independentes em Portugal. Não vou dizer que estou surpreendida, porque sei que não faltam escritores, artistas e ilustradores talentosos em Portugal, mas fico feliz em saber que todo esse talento está a ser aproveitado na área editorial. A Plin, por exemplo, é uma revista excelente que consegue mostrar uma grande originalidade no conteúdo e no design. Além disso, ler em português faz-me sempre sentir em casa.

 
 

Além da Nevoazul, que outras publicações destacas e porquê?
A Vestoj por voltar a falar da moda como arte, inspiração e cultura. A The Gentlewoman pelas entrevistas de dez páginas que nunca consigo deixar a meio. A Nang por ter dedicado o seu primeiro número aos guionistas do cinema asiático. A Krass Journal por ser uma das revistas mais conceptuais e interessantes que conheço e, por fim, a Happy Reader, cujo conteúdo é tão agradável e criteriosamente escolhido que acho que o editor Seb Emina deve ser uma espécie de génio.

Um roteiro para um dia minimalista perfeito na Invicta? 
Um dia perfeito na Invicta começa com um pequeno almoço no Diplomata, um espaço pequeno e acolhedor onde se podem comer as melhores panquecas da cidade. Se for um sábado, o próximo destino será o mercado Porto Belo, na Praça Carlos Alberto, onde vão poder encontrar bancas às riscas pretas e brancas com ilustrações, discos, cosmética natural e mel orgânico. Neste pequeno mercado tudo é honesto e significativo, mas a minha parte preferida é mesmo a simpatia com que os artesãos e vendedores conversam sobre a sua arte e os seus produtos. Meia volta à praça e já aprendi o que são kokedamus e como fazer uma cianotipia em tecido. A próxima paragem é no Coração Alecrim, uma loja situada na Travessa de Cedofeita onde se elogia a sustentabilidade e um estilo de vida simples. O almoço quer-se tranquilo e por isso eu escolho os jardins do Palácio de Cristal como um dos melhores sítios para fazer um pequeno piquenique. Não há filas de espera, apenas a vista para o rio e um leve cheiro a pinheiros no ar. A tarde será dedicada à calma e à leitura e os melhores locais para tal são a Flâneur e o Manifesto. Na primeira vão encontrar uma coleção invejável de livros, que podem folhear enquanto tomam um chá e comem uma fatia de bolo. No Manifesto podem perder-se numa das melhores coleções de revistas independentes que conheço e beber um specialty drip coffee preparado no momento com aromas que nos levam à Etiópia ou a Guatemala sem sairmos do sítio. O fim de tarde ideal no Porto é passado no Parque da Cidade. O lusco fusco pinta as árvores de cores suaves e cria o cenário ideal para conversar longe da pressa e das tecnologias do dia-a-dia.