Velo Culture. Amar a cidade, com calma.

Prelúdio: A Velo Culture é uma das lojas pioneiras na recuperação do Mercado e o Manifesto está cá por culpa do Miguel Barbot - uma das cabeças por detrás da Velo Culture. O Miguel é também um dos curadores convidados do nosso Quiosque e embaixador do consumo consciente através do Ofício. Decidimos por isso, começar o nosso blog entregando a pena aos duendes e às três dinamarquesas. 

 

A decisão de vir para este lado da cidade, numa altura em que só se falava da Baixa não foi inocente. Estávamos à procura de um sítio assim. Mais residencial que empresarial, mas que fosse uma centralidade. Um sítio em que a bicicleta fizesse, de facto, muito sentido. Confusos? 

Neste bairro estamos entre Leça e Matosinhos Sul, onde vivem milhares de pessoas, muitas delas que percebem bem o que andamos por cá a fazer. Mas estamos também no centro de uma cidade, com os CTT a um minuto, umas dez drogarias num raio de cinco minutos, cafés, restaurantes, bancos e um mercado de frescos a menos que isso. Tempos de pedalada, claro. 

Poder dar uma pedalada até à praia na hora do almoço foi certamente algo em que também pensámos quando tomámos a decisão de abrir aqui.

Quando abrimos a loja, em Janeiro de 2012, a zona estava um pouco em baixo de forma, com muitas lojas fechadas e negócios aparentemente pouco diferenciados. Nesse ano, assistimos à chegada de novos inquilinos às lojas vazias à volta do Mercado, um processo que foi bem assimilado pelo pessoal que por cá já andava. Novos negócios que vieram fortalecer os negócios já instalados, com restaurantes e bares a comprarem no Mercado, novos clientes com interesse no que por lá se vende e toda uma energia positiva à sua volta.

Lá por fora também se nota a diferença. Novos negócios têm aberto no bairro, com espaços de co-working na Conde S. Salvador e Roberto Ivens, uma escola com filosofia de ensino diferente no Godinho, estúdios de ioga um pouco por todo o lado, o novo espaço da ESAD em Brito Capelo.  

Apesar de isto não ser tão pequeno quanto isso, há ainda uma forte cultura local. O nosso gestor de conta quando precisa de alguma coisa passa por cá. O contabilista vem a pedalar para o trabalho, num espaço de co-working aqui perto. O nosso sistema informático foi desenvolvido a menos de um quilómetro daqui e a malta nos trata do site está ainda mais perto. Estes últimos, bons ciclistas urbanos, pedaladam com frequência até ao Manifesto, a nossa sala de reuniões emprestada. Conhecemos a maioria dos comerciantes do bairro e o pessoal que chega de novo é recebido como se estivesse cá desde sempre. 

Matosinhos é também das mais amigas da bicicleta, algo que este Verão foi altamente reforçado com o esforço da Câmara para tornar todas as ruas do bairro cicláveis. Até há pouco tempo a bicicleta foi o principal meio de transporte, trazendo os trabalhadores dos arrebaldes para as indústrias no Centro. A cidade é completamente plana, com uma invulgar organização ortogonal das ruas e esta atmosfera portuária, com uma luz muito Atlântica. Faz lembrar outras latitudes mais a Norte. 

A Velo Culture foi lançada por três pessoas ligadas pelo amor às bicicletas e a uma forma mais “calma” de viver a cidade.

Temos actualmente mais duas lojas para além da do Mercado de Matosinhos, uma no Porto e outra em Lisboa, e somos apaixonados por tudo o que respeita o ciclismo como meio de transporte urbano, as bicicletas de estilo clássico e uma certa maneira, mais contemplativa, de estar no ciclismo de estrada e de viagem. 

 
 

Temos uma grande preocupação com um consumo mais lento e consciente e os nossos clientes são normalmente pessoas que compram menos, mas compram melhor. Apostamos tudo em “pequenas grandes marcas” que partilham os nossos princípios de produção e ética: empresas geralmente independentes, com manufactura de pequena escala com preocupações ambientais e sociais, que fazem produtos de grande valor acrescentado, feitos para durar e com uma estética soberba.

O tipo de bicicletas e acessórios que por cá se podem encontrar são muitas vezes chamados erradamente de “clássicos”. Não são. São coisas que sempre se produziram e que sempre estiveram no centro dos mercados mais evoluídos, como os do Norte da Europa. As bicicletas, por exemplo, são feitas com ligas de aço leves e construídas de forma simples, sendo perfeitas para uma utilização urbana intensiva, com o mínimo de esforço físico e o mínimo de manutenção. A finlandesa Pelago é um excelente exemplo, sendo a nossa marca preferida.

Nos acessórios, a Brooks England é a marca com maior destaque, vendendo-se modelos de selins de pele com século e meio de história e que continuam a ser, de longe, a opção mais confortável no mercado para quem utiliza a bicicleta como meio de transporte. 

Agrada-nos a ideia de não estarmos sujeitos à ditadura do “último modelo”. Se um fornecedor deixa de fazer um modelo ou uma cor, não é motivo para “promoções” para despachar stock antigo, antes pelo contrário. O modelo fica mais raro, logo mais apetecido. Se não tiramos um produto do catálogo depois de descontinuado, é certo que, mais tarde ou mais cedo receberemos um email de alguém que já tinha perdido a esperança de o encontrar.